Alceu sempre defendeu um tipo de socialismo democrático trabalhista, nacionalista, de democracia popular

Alceu Amoroso Lima adere a teses de um socialismo católico e democrático desde suas primeiras obras.

Alceu, mesmo antes da conversão, defendeu as candidaturas de Rui Barbosa, que defendia uma “democracia social” (nome, na época, do socialismo democrático) e reformas sociais.

Alceu foi um dos que carregaram, nos braços, Graça Aranha, socialista democrático, na sessão da Academia de Letras, em 1924. E Alceu defendeu sempre o modernismo, numa síntese com o melhor do romantismo, como a literatura popular e nacional. Graça Aranha não era materialista, tinha religiosidade, defendendo um tipo de panteísmo.

Alceu era discípulo de Maritain, que defendia o socialismo democrático na Espanha, contra o franquismo. Alceu seguia Maritain, Mauriac, Alfredo Mendizabal, tendo ao lado estrelas como Mata Machado, Murilo Mendes e outros.

Sergio Milliet escreveu corretamente sobre Maritain: “Em política, coerente com a sua filosofia de uma verdade total e sintética, exigindo, portanto, de seus servidores uma atitude total e sintética, Maritain tomaria partido pela liberdade e a democracia. Em economia seria socialista.” (Sergio Milliet em “Homenagem a Maritain” artigo do “Estado de São Paulo”).

No final da vida, Alceu seguia principalmente Mounier e Merton, que defendiam coligações com os socialistas e com os comunistas, em prol da superação do capitalismo.

Alceu, como Pontes de Miranda, morre, declarando-se como socialista democrático católico.

Alceu defende o trabalhismo e o nacionalismo, desde suas primeiras obras. Deixa isso claro, no livro “Política”, em 1932, defendendo a estatização da energia, dos transportes coletivos, das minas e dos grandes bens produtivos.

Depois, em várias obras repete o mesmo, com ênfase, de 1935 em diante, com ênfase em 1943, e, mais tarde, cada vez mais à esquerda.

Alceu defendeu o New Deal desde o início, e lutou pela aproximação entre Getúlio e Franklin Roosevelt. Roosevelt veio duas vezes ao Brasil, prestigiar Getúlio.

Alceu defendeu sempre o legado trabalhista e nacionalista de Getúlio, do PTB, as estatais, a legislação operária, a Previdência, a expansão do Estado, os controles públicos de preços, as diversas formas de intervenção do Estado na economia etc.

Por exemplo, escreveu em 1949:  que um sistema socialista pode ser “legítimo, porque associou sinceramente a ordem econômica, que pretende impor pela socialização dos meios de produção, às liberdades humanas essenciais” (“Folha da Manhã” de S. Paulo, 15 de maio de 1949). Um tal sistema seria “legítimo e insuspeito por mais que os capitalistas, os neofascistas e os policialistas o considerem com desconfiança” (art. citado).

Alceu, no livro “O problema do trabalho”, deixa clara a primazia do Trabalho sobre o capital e as terras. E escreve:

Podemos falar em século socialista sem negar a variedade que ainda existe nas formas de organização econômica. E sem nos esquecermos de que a incompatibilidade da doutrina da Igreja com o socialismo, é apenas no terreno da filosofia da vida. É do socialismo materialista que a Igreja se separa radicalmente” (obra cit., pag. 152).

Em quase todas as obras, Alceu elogia os fabianos e o Trabalhismo inglês, tal como as boas teses do New Deal, e dos expoentes do Partido Democrático, nos EUA.

Alceu escrevia:

O socialismo — dominante na Inglaterra e representado pelas idéias de Harold Laski e por um grande movimento partidário em toda a Europa continental — é o partido das nacionalizações econômicas e da democracia trabalhista dirigida pelo Estado. Cada vez mais se acentua nele o predomínio das preocupações econômico-políticas, com a plena liberdade de filosofia e religião. É talvez o mais importante dos partidos políticos de após-guerra, na Europa. E o de mais futuro, pois está tendo cada vez mais a inteligência de não confundir as liberdades morais e cívicas essenciais, com a desastrosa liberdade econômica do capitalismo” (“O Problema do Trabalho”, pag. 136).

Alceu elogiava São Tomas Morus. No livro “A Igreja e o Novo Mundo”, Alceu escreveu:

“Entre a Arcádia de 1502 e o Príncipe de 1532, surgia a Utopia em 1516… Morus representava o Cristianismo mais puro do Renascimento. Olhava para o Novo Mundo como um campo possível de irradiação da Fé e como modelo possível para o mundo novo” e

“Sucedia, porém, que o livro de Morus, longe de representar, como tão frequentemente se afirma, o marco inicial moderno do socialismo – que teria passado de utópico a científico – foi, dentro de certos limites, uma solução cristã, por eminência e superação, dos dois extremos representados pelo neopaganismo de Sannazaro e de Machiavel. Daí significar ele, para nós católicos do limiar da idade nova, algo de semelhante ao que o Contrato Social de Rousseau representou para os iniciadores da civilização democrático-liberal ou o Kapital de Marx para os propugnadores de uma Ordem Nova comunista”.

“Em linhas gerais, porém, é a base de uma ordem social baseada na justiça e no amor, como deve ser toda ordem social verdadeira”.

Alceu completava, dizendo que como o livro “Cidade de Deus” de Santo Agostinho foi a Bíblia social da Idade Média, a Utopia de Tomaz Morus “poderá vir a ser, embora em plano bem diverso, com as limitações indicadas, uma Bíblia Social da Idade Nova”.

Alceu ainda dizia: “Foram os homens primitivos [nossos índios], os homens até então tomados como monstros e a quem muitos duvidavam atribuir uma alma humana, que o grande humanista britânico foi buscar como modelos para a humanidade desorientada de seu tempo”.

De fato, o HUMANISMO é basicamente uma criação católica, e isso foi frisado por Pio XII: “Se bem que o humanismo tenha por muito tempo pretendido se opor formalmente à Idade Média que o precedeu, — não é menos certo que tudo o que ele comporta de verdadeiro, de bom, de grande e de eterno pertence ao universo espiritual do maior gênio da Idade Média, São Tomaz de Aquino. Em seus traços gerais, o conceito do homem e do mundo, tal qual aparece na perspectiva cristã e católica, permanece no essencial idêntico a si próprio: tal em Santo Agostinho, como em São Tomaz de Aquino ou em Dante; tal ainda na filosofia cristã contemporânea” (Alocução aos membros do Congresso de Estudos humanistas, a 25 de setembro de 1949).

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