O SUJEITO [quem deve exercer, CONTROLAR O ESTADO e as RELAÇÕES DE PRODUÇÃO] da autoridade política [do Estado] é O POVO, considerado, na sua totalidade, como detentor da soberania”, cf. lição de João Paulo II

A concepção política e jurídica da Igreja, como foi resumida por João Paulo II, na “Centesimus” (n. 46), ensina que “o sujeito da autoridade política é o povo, considerado na sua totalidade como detentor da soberania”.

Esta proposição decorre de várias outras proposições-chaves das idéias do cristianismo sobre o poder e o direito, e valem também para o sistema econômico (o Povo, os trabalhadores, devem ter a PRIMAZIA, serem os SUJEITOS, e não o objetos das relações de produção).

O velho e bom Rousseau iria gostar muito de ler este texto de João Paulo II, tal como as encíclicas de João XXIII.

Como ensinou Paulo VI, num discurso de 01.09.1963, ao lembrar de São Vicente Palloti (1795-1850), santo que viveu na França sob a influência direta da Revolução Francesa, os leigos católicos durante a Revolução Francesa

“tinham a ideia viva da coincidência entre os grandes princípios da Revolução, que não tinha feito outra coisa senão apropriar-se de alguns conceitos cristãos: fraternidade, liberdade, igualdade, progresso, desejo de elevar as classes humildes”.

O texto de Paulo VI, acima transcrito, é excelente.

Lembro que Rousseau foi educado como católico e foi católico durante a maior parte de sua vida.

Paulo VI lembrou que “tudo isto era cristão”, fazia parte do “patrimônio evangélico, que visa valorizar a vida humana em um sentido mais alto e mais nobre”.

Os cristãos são a continuação das “raízes vivas” hebraicas, tal como “da Grécia clássica”, da África, da Ásia, do Egito, da Mesopotâmia, dos persas, do Renascimento, do “século das Luzes” (cf. Resolução do Encontro Ecumênico de Santiago de Compostela”, em novembro de 1991).

Num parêntese, vale a pena lembrar que a formação do ideário político democrata, em Atenas e Roma, ocorre já em contato e sob influência da cultura semita.

Roma só adota a forma da República em 510 a.C., com a “expulsão dos Tarquínios”, embora a democracia só passe a existir com “o estabelecimento dos tribunos da plebe” (cf. Maquiavel e Rousseau), em 494 a.C.

O mesmo ocorre na Grécia, só a partir de 500 a.C. há democracia. E, desde esta data, e bem ANTES, já há a influência FENÍCIA-SEMITA. Lembro que os fenícios falavam e escreviam uma língua SEMITA, quase igual aos JUDEUS, SENDO UM POVO IRMÃO dos judeus, sempre próximo dos judeus, como mostra a história de Davi etc.

O próprio SANTO AGOSTINHO é mais fenício que romano, sendo sua língua natal o fenício, pois nasceu perto da antiga Cartago, cidade fenícia, que quase derrotou Roma. 

Em Roma, é bom lembrar, a influência oriental ocorre desde a origem, pois os etruscos tinham origem asiática (cf. Fernand Braudel).

Praticamente na mesma época, em 508 a.C., Atenas adotou a forma republica democrática, graças a Clístenes. Clístenes liderou uma revolta popular em 508 a.C. e é tido como o “pai da democracia” em Atenas. Ele estendeu o direito de voto a quase todos os habitantes da cidade, ainda que não tenha eliminado a escravidão, infelizmente. O grande feito dos gregos, a derrota dos filhos de Psístrato, o tirano, foi feita com a ajuda da colônia fenícia, em Atenas, pois foram dois descendentes de fenícios que mataram o principal filho de Psístrato, o tirano.

Lembro também que a maior escola filosófica “grega”, o estoicismo, é uma corrente FENÍCIA. E que há imensa influência fenícia-semita (e judaica) nos textos de Platão e Aristóteles. 

Conclusão clara: as idéias centrais da DEMOCRACIA (e também da Revolução Francesa) nasceram nas idéias hebraicas da Revelação em interação com o melhor da Paidéia.

Prova disso está no fato que Marx destacou, o amor dos revolucionários franceses e americanos (especialmente Thomas Jefferson) pelos autores romanos e gregos.

Os textos de Diderot, Rousseau, Montesquieu, Mably e outros grandes Enciclopedistas são textos católicos, cristãos, teístas e também baseados na Paidéia. Misturam influência semita-católica com o melhor da Paideia. E cada católico ama a Paideia.

A Igreja foi a maior da instituições na PRESERVAÇÃO do MELHOR DA PAIDEIA, nos mosteiros e conventos, nas bibliotecas, nos livros copiados a mão, pelos BENEDITINOS e outros monges. 

O melhor da Paidéia, do patrimônio cultural da antiguidade, do acúmulo racional de idéias de gerações, foi mantido na “filosofia cristã” (que é a filosofia da Paidéia, depurada), pelos Santos Padres e esta linha perdurou na Idade Média, com a Escolástica, tal como no Renascimento e no Classicismo, nos séculos XVII e XVIII. Esta síntese foi a base filosófica da Revolução Francesa, da Democracia atual. 

A linha de síntese entre Tradição hebraica e Paidéia, de inculturação, está em quase todos os autores católicos, principalmente Suarez, John Dryden (1631-1700), o Abade de Saint-Pierre (1658-1743, que inspirou Rousseau), Montesquieu (1689-1755), Alexander Pope (1688-1744), Mably, o padre Sieyès, Ampère (1775-1836) e outros católicos.

Robespierre também era profundamente teísta e tinha vários amigos padres, esposando idéias cristãs e também da Paidéia.

As idéias democráticas de Robespierre são idéias cristãs, muitas delas vindas do abade Mably e de outros expoentes da Igreja.

O mesmo para Babeus e também para Buonarroti, o autor que inspirou a Liga dos Justos. 

A linha filosófica hegemônica de 1789 foi o jusnaturalismo cristão, o iluminismo cristão, como notou Pio XII, com fortes raízes católicas, ligadas à Tradição.

Esta linha foi sempre a a dos grandes leigos da Igreja, do povo trabalhador e notadamente das velhinhas da Igreja, tão elogiadas por Santo Tomás de Aquino.

Também foi a linha de Aquino, Suarez, de Morus, Domingos Las Casas, dos Santos Padres, tal como é a mesma linha de Leão XIII, João XXIII, Montini (depois Paulo VI), Lercaro, Liénart, Leo Suenes, Frings, Koenig, Dom Hélder, Alfrink, Doepfner, Rahner, Congar, Haring, De Lubac, Hans Kung, Schillebeeckx, Daniélou, Chenu, da maioria do Vaticano II, de Medellin, Puebla, da teologia da libertação, da teologia política e também da doutrina social da Igreja.

A Revolução Francesa foi feita principalmente por leigos católicos.

Num movimento paralelo, existiram movimentos pró-democracia na Polônia, na Irlanda, no Brasil, na Europa inteira.

O movimento da Independência nos EUA foi principalmente por leigos anglicanos, semi-católicos. Ao lado destes, atuaram leigos católicos franceses (no bojo da guerra entre a França e a Inglaterra), tal como leigos irlandeses e ainda as comunidades católicas em Boston, Baltimore (capital de Maryland, um dos treze Estados iniciais, de formação católica), Nova Iorque, Filadélfia e Louisville.

O primeiro bispo católico nos EUA foi John Carroll, bispo de Baltimore, um irlandês, INIMIGO do imperialismo inglês e amigo pessoal de George Washington (1732-1799).

Além dos leigos católicos na França, deve ser considerado que mais de três quartos dos representantes do clero nos Estados Gerais de 1789 se juntaram ao Terceiro Estado. O clero era representado por 208 padres e 47 bispos e boa parte aderiu à Revolução.

Gabriel-Honoré de Riquetti Mirabeau (1749-1791, o Conde de Mirabeau, teve o discernimento e a confiança na Igreja, ao chamar o clero a juntar-se ao terceiro estado, para formar a Assembléia Nacional, tendo o acatamento de quase todos os representantes do clero, que ficaram ao lado do povo. Mirabeau, COM A AJUDA DE UM PADRE JESUÍTA, redigiu obras como “Sobre a educação pública”, “Ensaio sobre o despotismo” e outras, de fundo cristão e democrático. Defendeu a liberdade religiosa.

Mirabeau, a principal liderança no início da Revolução, deixou grandes discursos, sendo a maior parte destes redigidos e elaborados pelo padre José Antônio Joaquim Cerutti (1738-1792), um padre jesuíta.

O padre Cerutti era professor no Colégio Jesuíta de Lyon e escreveu o livro “Apologia geral do Instituto e da doutrina dos Jesuítas”.

Este padre jesuíta estava em Paris em 1789 e se juntou a Mirabeau, redigindo parte de seus discursos. Cerutti escreveu obras como “Memória sobre a necessidade das contribuições patrióticas”. Em 1791, o padre Cerutti torna-se deputado na Assembléia Legislativa.

Na mesma linha, existiram milhares de militantes leigos católicos.

Houve ainda estrelas de primeira grandeza, como o bispo Henri Gregório (1750-1831). Este teve grande participação na reunião das três ordens em 1789. Na Convenção, em 1792, o bispo Gregório foi o primeiro a propor a abolição da monarquia e a criação da república.

O bispo santo Gregório também propôs a abolição da pena de morte. O bispo Gregório foi também o principal responsável pela restituição aos judeus dos direitos civis e pela abolição da escravatura, em 1794.

O bispo Gregório também defendeu a Declaração dos Direitos e a queria mais social, com deveres sociais da sociedade etc. Este bispo lutou pela igualdade civil, a liberdade de cultos e pela tolerância religiosa.

O bispo GREGÓRIO redigiu obras como “Ensaio sobre a regeneração física, moral e política dos judeus” (1789); “Discurso sobre a liberdade dos cultos” (1794); “Ensaio histórico e patriótico sobre as árvores da liberdade” (1794); “Da liberdade de consciência e do culto no Haiti”; “Da Constituição francesa do ano de 1814”; “Apologia de Bartolomeu de las Casas”; “Da literatura dos negros”; “Da influência do cristianismo sobre a condição das mulheres” (1821) e outras.

O bispo Gregório ocupou cargos na rede pública de educação e criou várias bibliotecas públicas, organizou livros didáticos simples e baratos etc.

O grande e genial Hipólito Carnot, autor praticamente mercantilista que odiava o imperialismo inglês, redigiu sua biografia, com o título “Henri Gregóire, bispo republicano” (Paris, 1882).

Numa atuação próxima, na época, havia o bispo Jean Baptist Gobel (1727-1794), de Paris, que defendeu a teoria da soberania do povo. Gobel disse, em boa voz, que sempre buscara “aumentar” no “povo”, o “amor aos princípios eternos da liberdade, da igualdade e da moral”.

Além do bispo Gregório, de Gobel e de outros, houve vários grandes figuras do clero que brilharam na Revolução. Especialmente o padre Sieyès, o bispo Claude Fauchet, Nicolau de Bonneville (1760-1828, autor de “Do espírito das religiões”), o bispo Antônio Pascoal Jacintho Sermet (1732-1808) e o padre Jacques Roux, o principal líder dos “enraivecidos”.

Fauchet e Bonneville fundaram o “Círculo Social” (que Karl Marx elogiou e considerou como movimento precursor ao seu movimento), inspirado nas idéias de Saint-Martin, que são extremamente religiosas, formando parte do iluminismo cristão e religioso (a maior parte do movimento iluminista era cristão e religioso, frise-se). Por exemplo, os Iluminados de Avinhão tinham como principal líder o beneditino Pernety. Este criou um rito, em 1760, que foi introduzido na Universidade de Montpellier, em 1799, influenciando José Alvarez Maciel, que conspirou para a independência do Brasil.

Outro bispo que teve grande parte na Revolução Francesa e em seus desdobramentos foi Talleyrand (1754-1838). Talleyrand era bispo em Autun e tornou-se presidente da Assembléia Nacional, em 1790, tendo sido várias vezes Ministro de Estado, no Estado gestado pela Revolução Francesa. Mesmo Taleyrand teve seus méritos, tal como cometeu vários erros éticos graves. No final, acabou tendo uma boa morte, graças à mediação de Dupanloup, um dos maiores bispos do século XIX.

Houve, ainda, milhões de leigos católicos que conciliavam perfeitamente catolicismo com a luta pela democracia. Há vários precursores do Vaticano II, como o padre Anton Gunter (1783-1863), da Congregação dos Redentoristas.

Num parêntese, até mesmo figuras turvas como Metternich e Talleyrand não defenderam a teoria do direito divino dos reis. Talleyrand e Metternich eram partidários de uma teoria consensual (jusnaturalista) de fundo histórico, flexível, parecida com a de Burke, um dos líderes do whig.

Mais tarde, houve homens como o cardeal Hércules Consavi; Sismondi (1773-1842, próximo ao catolicismo); Béranger; Buchez; Lamennais; Villeneuve-Bargemont e vários outros precursores da doutrina social da Igreja (especialmente Buchez, Ozanam e Ketteler).

Há uma linha luminosa e ortodoxa na Igreja: a linha que perpassa por pessoas como Bento XIV; Ercoli Consalvi; Dupanloup e pilhas de bispos progressistas; Leão XIII; os cardeais Rampolla, Desidério Mercier (1851-1926, um grande filósofo também), Ferrari, Ferrata, Della Chiesa, Maffi, Pompili e muitos outros; e deságua em João XXIII, Paulo VI, Bea, Frings, Alfrink, Suenens, Liénart, Giacomo Lercaro, Dom Hélder e outros.

Esta era também a linha do Patriarca libanês, Máximo IV Saigh, que, no Concílio Vaticano II, urgia por uma “mística dinâmica e uma vigorosa moral social, demonstrando que está em Cristo a fonte dos esforços dos trabalhadores, em direção à sua verdadeira libertação”.

Esta linha de luz e calor (cf. o padre Manuel Bernardes) perpassa toda a história da Itália, Bélgica, Irlanda, Espanha, Portugal, os países da América Latina e de outros países cristãos e católicos.

Na Itália, houve estrelas como G. Dossetti, Aldo Moro, Giorgio La Pira, G. Lazzati, Gasperi, Zaccagnini e outros, defensores da teoria do poder público como serviço ao povo, como instrumento e servo do povo.

Outros nomes (estrelas de grande intensidade, que vivem como anjos, atuando ainda) para ilustrar este ponto são Maritain, Mounier, Romulo Murri, Sturzo, G. Donati, F. R. Ferrari, tal como os cardeais Schuster e Dalla Costa.

Mesmo a Internacional Comunista prestou depoimento de elogio da boa linha da Igreja no movimento “mãos estendidas” à Igreja, desde 1934, com o apoio de Stalin (que se aproximava da Igreja Ortodoxa, da qual foi seminarista até quase chegar à ordenação, na Georgia), expressa por líderes como Togliatti (a “utopia religiosa” é fermento revolucionário) e mesmo Antônio Gramsci (1891-1937).

No Brasil, este movimento de mãos estendidas tem um símbolo em Luiz Ignácio Maranhão Filho, do Comitê Central do antigo PCB. Luiz Maranhão foi torturado e morto pela ditadura de 64, mas antes organizou o livro “A marcha social da Igreja” (Rio, Ed. Encontro, 1967), escrevendo um capítulo do livro, com introdução de Alceu Amoroso Lima .

A Igreja sempre esposou um otimismo antropológico.

Este otimismo foi parte essencial da educação católica de Rousseau, que foi católico dos 16 anos (de 1728, pois nasceu em 1712) até 1754, ou seja, até aos 42 anos, tendo inclusive freqüentado aulas em seminários católicos.

Rousseau foi influenciado por Montesquieu, Mably e Condillac (Mably e Condillac eram irmãos, sendo os dois sacerdotes católicos) e mesmo depois de passar do catolicismo ao protestantismo, Rousseau condenou os erros antropológicos jansenistas e calvinistas, de pessimismo. Rousseau foi também influenciado por Daniel Defoe e por John Locke.

Sobre o otimismo cristão e o culto à alegria, vale a pena ler João Paulo I, na “Audiência de 20.09.1978:

A mensagem cristã — disse o Concílio não afasta os homens da construção do mundo… impõe-lhes, ao contrário, um dever mais rigoroso” (Gaudium et Spes, 34. Cfr. nn. 39 e 57; e Mensagem ao Mundo dos Padres Conciliares, de 20 de Outubro de 1962).

“Têm surgido de vez em quando no decurso dos séculos afirmações e tendências de cristãos demasiado pessimistas quanto ao homem. Mas tais afirmações foram desaprovadas pela Igreja e esquecidas graças a uma falange de santos alegres e activos, graças ao humanismo cristão, aos mestres de ascética que Saint-Beuve chamou “les doux” [“os doces”] e graças ainda a uma teologia compreensiva. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, coloca entre as virtudes a “iucunditas” ou seja a capacidade de converter num sorriso alegre — na medida e no modo conveniente — as coisas ouvidas e vistas (Cf. 2.2ae, q. 168, a. 2). Jucundo deste modo — explicava aos meus alunos — foi aquele pedreiro irlandês, que se precipitou do andaime e quebrou as pernas. Levado ao hospital, vieram o médico e a Irmã enfermeira. “Pobrezinho — disse esta última feriu-se muito caindo”. Replicou o ferido: “Madre, não foi precisamente caindo, mas chegando ao chão é que me feri“. Declarando ser virtude gracejar e fazer sorrir, Santo Tomás encontrava-se de acordo com a “alegre nova” pregada por Cristo, com a hilaritas recomendada por Santo Agostinho. Vencia o pessimismo, revestia de alegria a vida cristã, convidava-nos a tomar “animo também com os gozos sãos e puros que se nos deparam no caminho. Quando eu era rapaz, li alguma coisa sobre Andrew Carnegie, escocês, que imigrou com os pais para a América e chegou pouco a pouco a ser um dos maiores ricaços do mundo. Não era católico, mas impressionou-me que falasse com insistência das alegrias genuínas e autênticas da sua vida. “Nasci na miséria — dizia —, mas não trocaria as recordações da minha meninice com as dos filhos dos milionários. Que sabem eles das alegrias familiares, da terna figura da mãe que junta em si os cargos de encarregada de crianças, de lavadeira, de cozinheira, de mestra, de anjo e de santa?”.

“Julgo que o Magistério da Igreja nunca insistirá demais em apresentar e recomendar a solução dos grandes problemas da liberdade, da justiça, da paz e do desenvolvimento; e os leigos católicos nunca se baterão suficientemente para resolver estes problemas”.

Boas as palavras acima do finado João Paulo I, que foi papa apenas por trinta e poucos dias.

A linha democrática e popular é a linha do melhor do clero e dos leigos da Igreja. Esta linha fica evidente em luminares como: João XXIII, o Cardeal Suenens, Cardeal Lercaro, Cardeal Martini, Manning, Mercier e outras grandes figuras da Igreja.

João XXIII, na “Mater et Magistra” (n. 65), explicou que a Igreja defende uma síntese de socialização com personalização, que é a base antropológica do ideal histórico de uma democracia popular, real, ponto bem destacado por Lercaro e Dom Hélder.

A ética hebraica, a cristã e a estóica concordam num ponto essencial: a pessoa deve viver para o todo (para a sociedade) e também, em boa síntese, para si mesmo, unindo, numa síntese, a autonomia pessoal e a social.

João XXII lembrou que o Estado deve promover o bem comum, que é “o conjunto das condições sociais” que possibilitem a todas as pessoas “a plenitude do seu desenvolvimento”, o florescimento da natureza. O Estado deve ser social e interventor, mas sob o controle do povo, da sociedade organizada.

São João XXIII lembrou que cada pessoa deve ter sua “efetiva autonomia”, “em sincera harmonia e em benefício do bem comum”.

Para João XXIII, cada sociedade deve ter a “forma” de “autênticas comunidades”, onde “os seus membros” sejam “tratados sempre como pessoas humanas”, “participantes” dos processos decisórios e dos bens, permitindo às pessoas “cultivarem melhor e aperfeiçoarem os seus dotes naturais”.

A linha de luz e vida de João XXIII é a linha do Cardeal Lercaro, de Dom Hélder e de outros expoentes da Igreja. Foi também a linha de outro grande expoente da Igreja, Dom Louis Joseph Liénart (1884-1973), Cardeal e bispo de Lille, na França. Esta é a linha preponderante do Vaticano II, da maior parte da Igreja.

O Cardeal Liénart era chamado de “Cardeal vermelho” (“Cardinal rouge”) ou “Cardeal dos operários” (“Cardinal des ouvriers”).

O bom Liénart foi um dos grandes responsáveis pela difusão do modelo francês de Ação Católica, com base em ramos especializados inseridos. Esteve no Brasil em 1955 e influenciou Dom Hélder nos trabalhos deste nas favelas do Rio do Janeiro.

Enrique Dussel teceu grande elogio ao Cardeal Liénart, no livro “De Medellin a Puebla” (vol. I, São Paulo, Ed. Loyola, 1981, p. 23). O padre Liénart apoiou o movimento grevista em Lille, em 1929. Isto, gerou um ataque do empresariado da cidade. Em 1930, Pio XI ordenou Liénart como bispo e, em seguida, Cardeal (com apenas 46 anos).

No início do Concílio Vaticano II, Liénart declarou “Hoc schema mihi non placet” (“esta minuta não tem meu placet, meu apoio”) e, com esta frase, tendo o apoio implícito de João XXIII, alterou, com os demais bispos do pólo da esquerda, a estrutura do Vaticano II.

João XXIII apoiou o pólo de esquerda dos bispos. O apoio do Papa, tal como o apoio do papa seguinte, Paulo VI, após a morte de João XXIII, foi decisivo para a aprovação dos melhores textos do Vaticano II.

A revista “La Civiltà Cattolica” (n. 3344, IV, p. 105-117, 1989), dos jesuítas, uma grande porta-voz do Vaticano, no editorial, lembrou que a Revolução Francesa” foi um “grande sinal dos tempos”, pois “exprimia e dava atuação histórica aos grandes valores [idéias, ideais] humanos da liberdade, da igualdade, da democracia, promovendo os direitos do homem frente ao poder absoluto e despótico” e “representava para a própria Igreja a libertação da dependência do poder civil, que a constrangia”. Da mesma forma, a Revolução superava a “confusão entre sociedade civil e sociedade religiosa”.

O “sujeito da autoridade política é o povo”.

Esta premissa basilar está bem clara nos textos de Cícero, dos estóicos e dos grandes juristas romanos. Está, por exemplo, nos textos de Gaio, especialmente nos trechos deste jurista, que muitos consideraram cristão, conservados no livro “Mosaicarum et Romanarum legum Collatio”, onde um escritor tentou demonstrar como o melhor do direito romano, a parte democrática, estava em adequação com as Leis de Moisés.

Os textos semi-cristãos e democráticos de Gaio influenciaram também a “Lex Romana Visigotorum”, a organização jurídica dos povos bárbaros.

Gaio era jusnaturalista e ensinava que a “lei é o que o povo ordena e estabelece” (cf. “Instituciones”, “Commentarius primus”, n. 2). Em todos os textos de Gaio, o sujeito político principal é o “Populus”, o “Povo”, o que é o enunciado fundamental da doutrina jusnaturalista da democracia (na mesma linha de Thomas Jefferson, Thomas Paine, Robespierre e outros luminares da democracia).

O enunciado de Gaio é também o enunciado de Mably, Spedalieri, Giuseppe Toniolo, de Ozanam, Windsthorst, Ketteler, Buchez e outras estrelas da doutrina social da Igreja.

Também é o núcleo (o miolo, o cerne) da concepção política do humanismo hebreu e também da Paidéia. Esta concepção põe a pessoa no centro do mundo, como senhora natural do mundo (cf. Gen 1,26), dado que fomos criados para a liberdade, para a autonomia e para o controle do universo, da natureza em geral e de nossa natureza. Fomos criados para sermos guardiões e cultivadores (cf. frases de Deus, na criação, vide Genesis) do Universo, para sermos co-criadores, dando continuidade à Criação, ao Universo, pela ETERNIDADE.

Conclusão: a genealogia do poder tem como causa imediata o povo organizado (no fundo, a união de mentes gerada pelo diálogo), como destacaram Cícero, os Santos Padres e também Suarez, Bellarmino e outros grandes luminares da Igreja.

A Igreja sempre ensinou que o poder político (na terminologia medieval, o poder secular, o poder temporal) é algo mundano, algo humano, regido pelas leis naturais, pela ação da liberdade humana. Pode ser bom ou mal, sendo bom o poder que é regido por boas idéias. Esta linha está clara inclusive nos textos mais agrestes dos Papas São Gregório VII e de Bonifácio VIII.

O sistema capitalista é perverso e iníquo porque reifica, aliena, usurpa o poder político, pondo-o à serviço da oligarquia, do grande capital (e do latifúndio, lembrando que o latifúndio, hoje, é o AGRONEGÓCIO, um setor CAPITALISTA).

Por esta razão, tal como por outras, fica claro que democracia e capitalismo são coisas antitéticas, contrárias, opostas, como destaca bem autores como Frei Betto, Emir Sader e outros grandes escritores CATÓLICOS, da LINHA HEGEMÔNICA DE ALCEU AMOROSO LIMA.

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