Proudhon e Kropotkin defendiam a pequena propriedade familiar, artesã, campesina e da pequena burguesia, com estrutura cooperativa, de reforço

Gaston Leval, René Berthier e Frank Mintz escreveram o livro “Autogestão e anarquismo” (Editora Imaginário, São Paulo, 2002), onde transcrevem excelentes textos de Kropotkin. Estes textos seguem transcritos abaixo.

Provam que os anarquistas defendiam a pequena propriedade, a pequena produção, associada em cooperativas, e mesmo formas de Estado, descentralizadas, para organizar a pequena produção campesina, artesã e da pequena burguesia:

Kropotkin

Proudhon foi o teórico do mutualismo que, em seus começos, implicava a posse dos meios de produção pelos produtores, e, se não o observássemos de perto, podia assimilar-se a uma concepção da propriedade individual sob forma de artesanato generalizado. Bakunin, por seu coletivismo, preconizava a pro­priedade coletiva dos meios de produção, tanto na indústria quanto na agricultura. Kropotkin, que aparecerá imediatamente depois dele, tornar-se-á o teórico e o sociólogo mais emi­nente do comunismo-anarquista, evidentemente. (…)

Kropotkin voltou a esse assunto em termos tão claros, oito anos mais tarde, e no mesmo jornal. Voltou de novo, de passa­gem, mas com insistência, em quase todos os seus livros. E é em seu belo estudo sobre a Revolução Francesa que ele escreve, depois de ter descrito as aspirações igualitárias que exprimiam os precursores do socialismo, Mably, Morelli, o vigário Jacques Roux [TRÊS PADRES CATÓLICOS, frise-se] e outros:

“Infelizmente essas aspirações comunistas não assumiam uma forma clara, concreta, entre os pensadores que queriam o bem do povo. Enquanto na burguesia instruída as idéias de liberação se traduziam por todo um programa de organização política e econômica, ao povo só se apresentava, sob a forma de vagas aspirações, as idéias de liberação e reorganização econômica. Aqueles que falavam ao povo não buscavam defi­nir a forma concreta sob a qual esse desiderato ou essas nega­ções podiam manifestar-se. Acreditar-se-ia, inclusive, que eles evitavam precisar. Voluntariamente ou não, eles pareciam di­zer: “Para que falar ao povo sobre a maneira como ele se organizará mais tarde? Isso esfriaria sua energia revolucionária. Que ele tenha tão-somente a força do ataque para marchar ao assalto das velhas instituições. Mais tarde, veremos como resolver isso”. Quantos socialistas e anarquistas ainda procedem da mesma maneira! Impacientes para acelerar o dia da revolta, tratam de teorias adormecedoras todas as tentativas de lançar alguma luz sobre o que a revolução deverá buscar introduzir”.

Para trazer um pouco de luz a essas questões, Kropotkin, após seu primeiro livro de demolição social, Palavras de um Revoltado, escreveu um livro de caráter reconstrutivo, sob o título sugestivo de “A Conquista do Pão”. A simples enumeração dos capítulos sucessivos dá uma idéia do que nele era tratado: Nossas riquezas; A abastança para todos; O comunismo anarquista; A expropriação; Os gêneros alimentícios; A moradia; O vestuário; As vias e os meios; As necessidades de luxo; O trabalho agradável; O livre acordo; O salariado coletivista; Consumo e produção; A descentralização das indústrias; A agricultura.

Este livro, que foi como a bíblia do anarquismo comunista durante meio-século, e traduzido em quinze ou vinte línguas, não estava isento de insuficiências, precisamente quanto à questão das vias e dos meios. No que concerne a esse assunto, Kropotkin estava aquém do construtivismo bakuniniano, e pecava por um enorme otimismo quanto à capacidade de inovação e improvisação dos “homens e das mulheres de boa vontade” e sobre o acesso universal a um grau de consciência que permitiria o livre consumo sob forma de “livre retirada”. (…)

Kropotkin escreveu mais tarde um outro livro intitulado “Campos, Fábricas e Oficinas” no qual, com base em documentação um pouco sistemática, desenvolvia a teoria da integração regional, segundo uma concepção humanista da economia. (…)

Mas é útil assinalar que ele soube adotar uma posição bem diferente. Temos a prova disso no capítulo de A Conquista do Pão, intitulado “Consumo e produção”. Talvez seja, sob nosso ponto de vista, o capítulo mais importante desse livro, e naturalmente aquele que foi o menos lembrado. Pois os pontos de vista, sensatos e lógicos que ali encontramos, implicam uma concepção da economia planificada em escala européia, e que, sendo posta em prática, deveria inelutavelmente resultar numa coordenação de conjunto implicando uma centralização múl­tipla – e talvez multiforme.

De saída, Kropotkin coloca a questão:

“até aqui todos os economistas, de Adam Smith a Marx, estudaram a economia começando pela produção. Nós, comunistas anarquistas, procedemos da maneira inversa: estudamos quais são as necessidades a satisfazer, os problemas do consumo a resolver. Depois, organizamos a produção para satisfazer essas necessidades e resolver esses problemas”.

Isso, conquanto não se empregasse a expressão em 1885, era a planificação:

Entretanto, tão logo a consideramos desse ponto de vista, a economia política muda totalmente de aspecto. Isso cessa de ser uma simples descrição dos fatos e torna-se uma ciência, da mesma maneira que a fisiologia: podemos defini-la como sendo o estudo das necessidades da humanidade e dos meios de satisfaze-las coma menor perda possível das forças humanas. Seu verdadeiro nome seria fisiologia da sociedade.

Dizemos: Eis seres humanos, reunidos em sociedade. To­dos sentem a necessidade de habitar casas salubres. A cabana do selvagem não os satisfaz mais. Eles pedem um abrigo sólido, mais ou menos confortável. Trata-se de saber se, levando em consideração a produtividade do trabalho humano, eles poderão ter cada um sua casa, e o que os impediria de tê-la?

Procedemos, como podemos ver, bem ao contrário dos economistas que eternizam as pretensas leis da produção e, fazendo a conta das casas que são construídas por ano, demonstram pela estatística que, não sendo construídas em número suficiente para satisfazer todas as demandas, os nove décimos dos europeus devem habitar casebres”.

A concepção de Proudhon sobre a “posse dos meios de produção pelos produtores” combinada com “uma concepção da propriedade individual sob forma de artesanato generalizado” e a idéia de Bakunin sobre o cooperativismo com a “a pro­priedade coletiva dos meios de produção, tanto na indústria quanto na agricultura”, por associações operárias e agrícolas, são perfeitamente coerentes com a doutrina da Igreja.

Expressam os ideais de controle dos trabalhadores sobre os meios de produção. Este controle deve estar sujeito a formas de planejamento participativo.

Proudhon escreveu, no livro “Confissões de um re­volucionário”, que “é preciso que a centralização efetue-se de baixo para cima, da circunferência ao centro, e que todas as funções sejam independentes e se governem por si mesmas”.

Sébastien Faure, tal como Pierre Besnard, também defendia a organização “de baixo para cima”, uma centralização controlada pela base. No mesmo sentido, foram escritas as boas obras de Kropotkin: “Campos, fábricas e oficinas”, “A conquista do pão”, “A ajuda mútua” e “Ética”.

Kropotkin, no livro “A conquista do pão”, criticou a produção em grandes estabelecimentos fabris e disse que a difusão da energia elétrica permitiria um regresso às pequenas unidades de produção sob o controle dos trabalhadores. Em suma, milhões de pequenos produtores, com pequenas propriedades, independentes, mas organizados, localmente e regionalmente, e também nacionalmente, de debaixo para cima, em formas de planificação de apoio, com vastas cooperativas de reforço aos pequenos produtores. Difusão maciça da pequena propriedade familiar, pontos em que a Igreja sempre recomendou, via padres como Mably, Morelly, Jacques Roux, o bispos católicos do Círculo Social e outros. No fundo, economia mista. 

Os movimentos anarquistas que ainda existem têm, assim, uma boa base para alianças e diálogos com os cristãos.

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