Texto de formatura ginasial, do jovem Marx, quando tinha 17 anos e tinha religiosidade, pois estudava num Ginásio de católicos - Blog Luiz Francisco Fernandes de Souza

Texto de formatura ginasial, do jovem Marx, quando tinha 17 anos e tinha religiosidade, pois estudava num Ginásio de católicos

“Reflexões de um Jovem sobre a Escolha de uma Profissão

Karl Marx

Agosto de 1835

A própria natureza determinou uma esfera de atividade na qual os animais devem se mover, e eles pacificamente se movem dentro dessa esfera, sem tentarem ir além ou sequer suspeitarem de outra.

Para o homem, também a divindade concedeu um objetivo geral: o de enobrecer a humanidade e a própria divindade. Mas ela deixou para o homem a tarefa de buscar os meios pelo qual esse objetivo pode ser alcançado, deixou para os homens o trabalho de escolher a posição na sociedade mais adequada a cada um, a partir da qual cada indivíduo pode elevar a si mesmo e a sociedade.

Essa escolha é um grande privilégio do homem perante o resto da criação, mas, ao mesmo tempo, é um ato que pode destruir sua vida, arruinar seus planos e fazê-lo infeliz. Uma consideração séria dessa escolha é, portanto, a primeira tarefa de um jovem que está começando sua carreira e que não quer deixar suas questões mais importantes ao acaso.

Todos possuem um objetivo em vista, o qual, ao menos para o possuidor, parece ótimo, e realmente o é quando sua mais profunda convicção, a mais profunda voz de seu coração, pronuncia que se é ótimo. A divindade nunca deixa os homens totalmente sem um guia, ela fala suavemente, mas com certeza.

Mas essa voz pode ser facilmente afogada, e aquilo que tomamos como inspiração pode ser produto do momento, o qual outro momento pode talvez destruir. Nossa imaginação às vezes é incendiada, nossas emoções agitadas, fantasmas voam diante de nossos olhos e nós mergulhamos de cabeça nas mais impetuosas sugestões do instinto, as quais nós imaginamos que a própria divindade nos tenha apontado. Mas aquilo que nós ardentemente abraçamos logo nos repele e vemos toda a nossa existência em ruínas.

Devemos, portanto, examinar seriamente se nós realmente fomos inspirados na escolha de nossa profissão, se nossa voz interior aprova isso, ou se essa inspiração é uma ilusão e o que tomamos como um chamado da divindade foi apenas auto decepção. Mas como podemos reconhecer essa ilusão sem rastrear a fonte da própria inspiração?

O que é ótimo brilha, e esse brilho desperta ambição. Essa ambição pode facilmente ter produzido a inspiração, ou aquilo que tomamos como inspiração, mas a razão não pode mais conter o homem que está tentado pelo demônio da ambição e ele mergulha de cabeça no que esse impetuoso instinto sugere: ele não mais escolhe sua posição na vida; em lugar disso, sua posição é determinada pelo acaso e pela ilusão.

Não somos chamados a adotar a posição que nos oferece as mais brilhantes oportunidades, essa não é aquela que, ao longo dos anos que talvez a manteremos, nunca nos irá cansar, nunca irá amortecer nosso zelo, nunca irá deixar nosso entusiasmo crescer frio, mas aquela na qual nós, em breve, veremos nossos desejos insatisfeitos, nossas ideias insatisfeitas e então invejaremos a divindade e amaldiçoaremos a humanidade.

Mas não é apenas uma ambição que pode despertar entusiasmo repentino por uma profissão em particular, nós talvez a tenhamos embelezado em nossa imaginação e embelezamento é a causa em razão da qual isso nos parece o que a vida tem de melhor a oferecer. Nós não a analisamos, não consideramos seus encargos totais, a grande responsabilidade que nos impõe a vimos apenas de uma grande distância; e distância é algo enganoso.

Nossa própria razão não pode nos guiar aqui, pois ela não é baseada na experiência nem na observação profunda, sendo enganada pela emoção e cega pela fantasia. Para quem então devemos nos voltar? Quem pode nos ajudar onde nossa razão nos trai?Nossos pais, que já atravessaram a estrada da vida e experimentaram a severidade do destino. Nosso coração nos diz isso.

E se mesmo assim nosso entusiasmo persistir, se nós continuarmos a amar uma profissão e crer que somos chamados para ela – mesmo após examiná-la a sangue frio, após termos considerado seus encargos e estarmos familiarizados com suas dificuldades –, então nós devemos adotá-la. Assim, nem somos enganados pelo entusiasmo e nem a precipitação nos leva embora.

Mas nem sempre somos capazes de atingir a posição para a qual acreditamos termos sido chamados. Nossas relações sociais começaram, até certo ponto, a ser estabelecidas antes mesmo de estarmos em uma posição para determiná-las.

Nossa própria constituição física é frequentemente um ameaçador obstáculo, que não deixa ninguém burlar seus direitos.

É verdade que podemos tentar passar por cima disso, mas então nossa queda será ainda mais rápida. Nós estaremos nos aventurando a construir algo em cima de ruínas, e assim toda nossa vida será uma infeliz luta entre o princípio mental e o físico. Mas quem é incapaz de reconhecer os elementos conflitantes dentro de si próprio? Como se pode resistir ao tempestuoso estresse da vida? Como se pode agir calmamente? E é a partir da calma, sozinha, que grandes atos podem surgir, ela é o único solo onde frutos maduros se desenvolvem com sucesso.

Apesar de não podermos trabalhar por muito tempo, e raramente felizes com uma constituição física que não é adequada à nossa profissão, continua a surgir o pensamento de sacrificar nosso bem-estar pelo dever, de agir vigorosamente apesar de sermos fracos. Mas se nós escolhemos uma profissão para qual não possuímos talento, nunca poderemos exercê-la dignamente. Nós logo perceberemos, com vergonha, nossa incapacidade e diremos a nós mesmos que somos criaturas inutilmente criadas, membros da sociedade que são incapazes de cumprir sua vocação. Então a mais natural consequência é o auto desprezo. E qual sentimento é mais doloroso e menos capaz de ser compensado por tudo o que o mundo exterior pode oferecer? Auto desprezo é uma serpente que roí o peito, suga o sangue vital do coração e o mistura com seu veneno de misantropia e desespero.

Uma ilusão acerca de nossos talentos é um erro que se vinga de nós, e mesmo que não nos encontremos com a censura do mundo exterior, isso faz surgir uma dor mais terrível em nosso coração do que a dor infringida pela censura.

Se nós considerarmos tudo isso, e se as condições de nossas vidas permitirem que escolhamos qualquer profissão que gostarmos, nós podemos adotar aquela que nos assegura maior valor (1), aquela baseada em ideias sobre cuja veracidade estamos completamente convencidos, que nos ofereça o âmbito mais amplo para trabalharmos pela humanidade e para nós mesmos chegarmos perto do objetivo geral para o qual cada profissão é apenas um significado: perfeição.

O valor de uma profissão é aquele que mais ergue um homem, o qual transmite alta nobreza a suas ações e seus esforços, que o faz invulnerável, admirado pela massa e elevado acima dela.

Mas valor somente pode ser assegurado por uma profissão com a qual não seremos apenas ferramentas servis, mas na qual agimos independentemente em nossa própria esfera. Só pode ser assegurado por uma profissão que não demande atos repreensivos, mesmo se repreensivos apenas na aparência; uma profissão onde o melhor pode seguir com nobre orgulho. A profissão que assegurar essas condições, no mais alto grau, nem sempre é a mais alta, mas sempre é a mais preferível.

Entretanto, assim como uma profissão que não nos assegura valor nos degrada, nós também certamente sucumbiremos sob os fardos de uma que se baseia em ideias que mais tarde reconheceremos como falsas.

Não temos outro recurso senão o autoengano e a salvação desesperada, aquela obtida pela autotraição.

Essas profissões que não são tão envolvidas com a vida, e são preocupadas com verdades abstratas, são as mais perigosas para um jovem cujos princípios ainda não são firmes e cujas convicções ainda não são fortes e inabaláveis.

Ao mesmo tempo, essas profissões parecem ser as mais exaltadas caso tiverem raízes profundas em nossos corações e se formos capazes de sacrificar nossas vidas e nossos esforços pelas ideias que nelas prevalecem. Elas podem conceder felicidade ao homem que tem vocação para elas, mas destroem quem as adota precipitadamente, sem reflexão, cedendo aos impulsos do momento.

Por outro lado, a grande consideração que temos pelas ideias sobre as quais nossa profissão é baseada nos dá uma alta posição na sociedade, aumenta nosso valor e torna nossas ações incontestáveis.

Quem escolhe uma profissão que valoriza muito estremecerá a ideia de a ela ser indigno, e irá agir de maneira nobre apenas se sua posição for nobre.

Mas o guia que deve nos conduzir na escolha de uma profissão é o bem-estar da humanidade e nossa própria perfeição. Não se deve pensar que esses dois interesses possam estar em conflito, que um tenha que destruir o outro; pelo contrário, a natureza humana é constituída de modo que o homem apenas pode alcançar sua própria perfeição trabalhando pela perfeição, pelo bem, de seus iguais. Se ele trabalhar apenas para si mesmo, pode até se tornar famoso, um grande sábio, um excelente poeta, mas ele nunca poderá ser perfeito, um homem pleno.

A história chama de grandes esses homens que se enobreceram trabalhando pelo bem comum, a experiência aplaude como os mais felizes aqueles que fizeram o maior número de pessoas felizes, a própria religião nos ensina que o ser [Cristo] em quem todos devem se espelhar se sacrificou pelo bem da humanidade. E quem se atreveria a reduzir a nada tais julgamentos?

Se escolhermos a posição na vida com a qual podemos trabalhar pela humanidade, nenhum encargo irá nos pôr para baixo, pois esses encargos são sacrifícios pelo bem de todos. Então não experimentaremos alegria mesquinha, limitada e egoísta, mas nossa felicidade irá pertencer a milhões, viveremos de ações silenciosas, mas em constante trabalho, e sobre nossas cinzas serão derramadas quentes lágrimas de pessoas nobres”.

* Primeira Edição: Archiv für die Geschichte des Sozalismas und der Arbeiterbewegung. Leipzig: K. Grünberg, 1925; escrito entre 10 e 16 de agosto de 1835.

Fonte: .

Tradução: Lucas Fabricio.

HTML: Fernando A. S. Araújo.

Direitos de Reprodução:  Licença Creative Commons.

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