Blog Luiz Francisco Fernandes de Souza - Blog Católico-Socialista, na linha de Alceu, Dom Hélder, Frei Betto e outros. Economia Mista. A Doutrina social da Igreja é um conjunto de FÓRMULAS [Receitas, ideias práticas] e critérios para julgar os fatos, nascidas da História, da Tradição e da Bíblia.

O evolucionismo católico. Deus é o Motor, o Fogo, a Consciência do Universo, habitando o Universo como nossa alma habita nosso corpo

A criação é um processo em curso. A Criação continua, eternamente.

O universo sempre geme como em dores de parto para gerar o novo universo, renovado, fruto do trabalho e das lutas humanas auxiliadas por Deus

A criação é um processo em curso (um “processo de gênesis”, conforme uma expressão de Engels, no livro “Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica”) e deve ser considerada como “um bem da humanidade inteira” (cf. a encíclica “Tertio millennio adveniente”,13).

A criação é um processo histórico, de cooperação entre as pessoas e a natureza (e Deus, o Motor e o Cérebro por trás da Criação, que é Sua Obra), em direção à renovação do universo (novos céus e nova terra, cf. Isaías e Apocalipse), onde as pessoas irão ser libertadas (controlarão as próprias vidas e os bens).

A forma como ocorrerá esta transformação não é precisa, há apenas imagens e metáforas, o que foi dito expressamente é que a mesma ocorrerá por um processo participativo, cooperativo (as pessoas cooperando entre si e com a ação de Deus).

Pode ser que a Segunda Vinda de Cristo ocorra antes, mas sempre o Universo continuará, pois a Obra de Arte do Artista está em curso. Deus Pai opera no universo, pelas mãos de Cristo e do Espírito Santo (por dentro das pessoas).

A Trindade opera sempre, sendo o Motor, o Coração, a Alma, o Espírito do universo. Deus habita o Universo como nossa alma habita e se mescla em nosso corpo.

A Encarnação de Deus é parecida com a Eucaristia, por fora parece pão e vinho, por dentro está Deus. 

Sobre este ponto há um livrinho muito bom, denominado “Um mundo por fazer, a criação ainda não acabou”, do canadense Robert David (da faculdade de teologia da Universidade de Montreal), editada pelas Paulinas, em 1998. Robert David mostra que o universo evolue no sentido da complexidade (um pouco na linha evolucionista de Spencer e Bergson, que Alceu apreciava) e que toda a criação irá “participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus” (cf. foi dito por São Paulo, na carta aos Romanos, 8,21).

Fourier, bom cristão que citava os Evangelhos e falava sempre de Deus, também demonstrou que a libertação das cadeias que esmagam as pessoas tem aspectos cosmológicos.

Os textos de São Tomás de Aquino sobre a renovação do universo e sobre os novos corpos mostram, claramente, que as pessoas serão libertadas, participando do controle do universo, em total harmonia com Deus, com os seres inteligentes e também com o novo universo.

O próprio Karl Marx usou a imagem de São Paulo, onde este diz que “toda a criação geme em dores de parto até hoje. E não só ela: nós mesmos, que possuímos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, à espera da redenção de nosso corpo” (Rom 8, 18-24). A redenção (libertação) do corpo e de toda a criação.

Eherhard Welty, no livro “Propriedade e trabalho”, Herder/Áster, Lisboa, p. 33, diz que “para S. Tomás, o governo (gubernatio) do universo é uma criação continuada (creatio continuata)], unindo os seres inteligentes entre si e com a Inteligência divina”, com o Amor divino.

O amor ao próximo como a si mesmo (logo, relações cooperativas e fraternas) é o caminho para o amor a Deus, para a renovação do universo.

Para Tomás de Aquino, a lei natural é o conhecimento racional (pela lumen naturale, luz natural) da vontade de Deus. A vontade de Deus se manifesta pela Providência (plano de Deus, cooperativo), pelo movimento inteligente do universo (razões seminais, ratio gubernationis rerum), pelo movimento natural e evolutivo da história (em direção à renovação do universo, no futuro).

O movimento evolutivo (como disseram Kropotkin, Engels e Lavrov) tem como base a fraternidade (o mesmo mote da Liga dos Justos).

Engels, na carta de 12.11.1875, a Lavrov diz claramente que aceitava “a teoria da evolução” com base na ampliação do “instinto social”, como o móvel principal da evolução.

A “idéia da solidariedade”, segundo Engels, deveria “abarcar toda a humanidade” para transformar esta numa “sociedade de irmãos solidários”, o que é exatamente a finalidade do cristianismo.

No documento “Igreja e problemas da terra”, aprovado na 18ª Assembléia da CNBB, em 14 de fevereiro de 1980, há a mesma idéia:

60. Deus é o criador e soberano Senhor de tudo. “Sim, o grande Deus é o Senhor, o grande Rei, maior que os deuses todos; em suas mãos está a terra inteira, dos vales aos cimos das montanhas; dele é o mar, foi Ele quem o fez e a terra firme suas mãos modelaram” (Sl 94).

61. Como criador e Senhor, é Deus que tem poder de definir o uso e a destinação da terra. Desde o início Ele a entregou aos homens para que a submetessem e dela tirassem o seu sustento (Gn 1, 23-30)”.

A razão pela qual Deus é apontado como o “senhor de tudo” é por ser o “criador”, o Trabalhador que modelou, com Suas mãos, a terra firme (cf. Salmo 94). E por isso tem o poder de “definir o uso e a destinação da terra”, tendo destinada a mesma às pessoas, para que a submetam (continuem o processo da criação, aperfeiçoando-a) e vivam de forma digna.

Como somos feitos à imagem e semelhança de Deus, somos também criadores e devemos, para nos unir com Deus (ampliando nossa semelhança), nos tornar associados (filhos de Deus) no controle e na melhoria do universo. A noção dos direitos do trabalho está clara no “Gênesis”.

O trabalho é a participação na obra divina, no desenvolvimento da criação (cf. Laborem exercens, 19). Criados à imagem e semelhança de um Deus criador, é natural que possamos ser também criadores, e tenhamos o dever de participar como sujeitos conscientes no processo da criação, participando no controle da natureza, aperfeiçoando a natureza e a nós mesmos, em relacionamento fraterno e cooperativo com as outras pessoas.

O Papa Pio XII, perante quatro mil professores, declarou, em junho de 1953: “educação é perfeição humana e não enciclopedismo. Ela consiste em completar e aperfeiçoar o ser humano”. Da mesma forma, inclusive tendo em conta que a educação é uma espécie de trabalho, o trabalho visa completar e aperfeiçoar a criação.

O mundo, hoje, está decaído, pois foi atingido pela Queda. Decaído, mas está em processo de transformação, de renovação, em direção ao novo céu e nova terra, descrito em Isaías e no Apocalipse.

O evolucionismo cristão coloca nas mãos da humanidade o controle da evolução (ponto semelhante ao congruísmo, ao molinismo etc), como souberam expor Bergson, o padre Teilhard de Chardin (em “O fenômeno humano”, onde mostra que as idéias dos deterministas e dos finalistas são complementares e não excludentes), Alceu, Gutiérrez, Bultmann (“a fé é a fé no porvir que Deus reserva ao homem”), Moltmann, Metz, Schillebeeckx e outros.

A melhor prova que o processo de criação continua é o nascimento de novas pessoas, “a criação imediata” de novas almas, criadas para integrarem a humanidade, conforme constatou Paulo VI, em um diálogo com teólogos, em 11.07.1966.

Houve um teólogo que disse que a frase onde está dito que Deus descansou no sétimo dia se explica pelo fato de ter criado as pessoas neste “dia” e daí em diante nós trabalharíamos para renovar e elevar o universo em direção à parusia, ao novo universo renovado, o oitavo dia, cf. consta no “Catecismo do Vaticano”, já referido neste blog. 

O texto de “Gênesis”, capítulos 1 e 2, não trata sobre a forma da origem do universo, não é um texto científico, não descreve como foi a origem. Trata sobre a soberania de Deus e das pessoas, o destino (a destinação) do universo (florescer a vida) e outros pontos religiosos. João Paulo II, em um discurso na Pontifícia Academia de Ciências, em 03.10.1981, disse:

A Bíblia mesma nos fala da origem do universo e sua formação, não para nos fornecer um tratado científico, mas para precisar as relações corretas do homem com Deus e com o universo. A Sagrada Escritura quer simplesmente dizer que o mundo foi criado por Deus e, para ensinar essa verdade, exprime-se com os termos da cosmologia usada no tempo daquele que escreveu. O livro sagrado quer, além disso, fazer saber aos homens que o mundo não foi criado como sede de deuses, como ensinavam outras cosmogonias e cosmologias, mas que foi criado para a utilidade do homem e a glória de Deus. Qualquer outro ensinamento sobre a origem e a formação do universo é estranho às intenções da Bíblia: ela não quer ensinar como foi feito o céu, mas como se vai para o céu”.

O trabalhador não pode permanecer em condições sociais análogas a de um escravo, reificado.

O trabalhador deve atuar como um sujeito, participante na vida de Deus, Ordenador do universo, no processo da criação e da renovação do universo.

A ligação do trabalho com os bens (usar os bens na medida das necessidades, atuando como sujeito) mostra que o trabalhador deve ter o controle sobre o processo produtivo, sobre suas atividades, o produto, a destinação do mesmo etc.

Paulo VI escreveu (continuando várias linhas básicas de João XXIII) sobre esta exigência ética: toda pessoa tem o direito “à vida, à integridade física e aos meios necessários e suficientes para uma existência decente”.

Os melhores textos das declarações de direitos trazem as mesmas linhas, inclusive a “Convenção européia sobre os direitos humanos”.

Pio XI e Maritain reconheceram os elementos cristãos dentro do socialismo

Como reconheceu Pio XI, em 1931, na “Quadragesimo anno” (n. 119), “o socialismo, como todos os erros, encerra algo de verdade (o que os sumos pontífices nunca negaram)”.

Mais ainda. Segundo Pio XI, no mesmo texto, estas verdades “não se afastam da verdade cristã”, “não pertencem exclusivamente ao socialismo”, “suas reivindicações concordam, às vezes muitíssimo, com as reclamações dos católicos que trabalham na reforma social” (n. 113).

Pio XI também reconheceu que as mudanças do socialismo levaram o próprio socialismo a se “aproximar” do cristianismo.

Pio XI talvez tenha sido assassinado pelos nazistas ou fascistas, pois morreu quando estava terminando uma encíclica contra o racismo, com ótimos textos.

Pio XI também afirmou que os grandes meios de produção devem pertencer ao Estado, o que implicaria, cedo ou tarde, na supressão do latifúndio e do capital monopolista.

A tradição colbertista e dos tempos de monarquia, da Igreja, a Tradição católica mais antiga, sempre aceitou um amplo grau de intervenção estatal na economia, basta a leitura dos textos de Vieira e outros autores renascentistas.

Maritain, no livro “Humanismo integral” (Ed. Dominus, São Paulo, 1962, p. 34), apontou os elementos de verdade no comunismo, deixando claro que dentre as fontes (“elementos originários”) que geraram o comunismo há “elementos cristãos”. Vejamos o texto do grande Maritain, autor da Igreja citado por Paulo VI em sua principal encíclica sobre a questão social, a “Populorum progressio”:

Há também, entre os elementos originários do comunismo, elementos cristãos.

“S. Tomás Morus tinha idéias comunistas. Em suas fases preparatórias, não foi sempre ateu o comunismo. A idéia mesma de comunhão que constitui sua força espiritual, e que ele quer realizar na vida social-terrestre (e ela se deve nela realizar, mas não exclusivamente nela, nem arruinando a vida justamente onde ela se realiza do modo mais perfeito e segundo as aspirações mais altas da pessoa humana), a idéia mesma de comunhão é uma idéia de origem cristã. E são virtudes cristãs desviadas, as “virtudes enlouquecidas” de que falava Chesterton, é o espírito de fé e de sacrifício, são as energias religiosas da alma que o comunismo se esforça por canalizar em proveito da sua própria obra e de que tem necessidade para subsistir”.

Os “elementos originários do comunismo”, ou seja, as fontes religiosas do mesmo, devem ser reconhecidas e resgatadas e são as pontes para um bom diálogo.

Charles Darwin nunca foi ateu e escreveu textos sobre Deus, em suas principais obras

Darwin, em suas próprias palavras, NUNCA foi ateu, nunca negou a existência de Deus.

Para provar esta afirmativa, basta considerar que Darwin escreveu, em sua principal obra, textos sobre a maravilha da criação e fala de Deus.

E mais, pouco antes de morrer, Charles Darwin, numa carta, em 1879, diz EXPRESSAMENTE E CLARAMENTE que “não cheguei nunca ao ateísmo” (publicada no livro “Vida e correspondência”, livro editado em Paris, em 1888). Vejamos as palavras de Darwin, em 1879:

Quaisquer que sejam minhas convicções sobre este ponto, não podem ter importância, exceto somente para mim. (…) Posso assegurar que meu juízo sofre frequentemente flutuações (…) Em minhas maiores oscilações não cheguei nunca ao ateísmo no verdadeiro sentido da palavra, quer dizer, a negar a existência de Deus.

“Eu penso que, em geral (e sobretudo a medida em que envelheço), a descrição mais exata de meu estado de espírito é a do agnosticismo”.

O “agnosticismo”, em geral, não negava a existência de Deus.

O agnosticismo apenas ressaltava que a mente humana pode apreender muito pouco sobre Deus. A própria Teologia católica ensina o mesmo. A Revelação não é total e nem exaure. Há muita coisa sobre Deus, nossa alma, o futuro que não foi dito expressamente na Revelação.

A mente humana pode chegar a formar idéias válidas sobre Deus, sobre a ética, mas não ideias que exaurem, ficando muito na esfera do mistério, para futuras descobertas. 

O paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-2002) escreveu o livro “Pilares do tempo” (Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2002) demonstrando a coexistência natural e benéfica entre a ciência e a religião.

A ciência examina o mundo natural e a religião tem como objeto o universo moral. Esta divisão não é tão exata, pois a ciência também pode e deve gerar juízos éticos.

O neopositivismo é que erra totalmente ao proibir juízos éticos (valorativos).

Einstein, Max Planck, Werner Heisenberg, Ilya Prigogine, Wolfgang Pauli e a maioria dos grandes cientistas afirmaram corretamente que a ciência e a religião são compatíveis e complementares.

O apoio estatal a agricultura familiar deve ser permanente e universal, subsídios em cada país

José Bové, líder camponês francês, tem as mesmas ideias da Via Campesina, que é a organização internacional dos camponeses, ligada a igreja.

O MST, no Brasil, é apenas a Via Campesina, aqui, uma sucursal da Via. 

A Via defende o apoio estatal aos camponeses (planificação participativa), cooperativismo etc. Defende toda forma de apoio estatal (subsídios, protecionismo) à agricultura, para assegurar a “segurança alimentar permanente e universal”, cf. expressão de João Paulo II.

Na Europa há estes subsídios. Devem ser aperfeiçoados, para ficarem restritos aos pequenos e médios produtores rurais.

E devem ser criados no Brasil.

No fundo, esta é a mesma linha do padre Mably e de autores como Necker, em suas críticas contra os liberais, os fisiocratas e os livres cambistas (ideólogos do imperialismo econômico).

Os melhores marxistas escreveram textos defendendo a ética cristã e judaica

Jules Guesde e Maurice Thorez reconheceram a ética (ideias práticas sobre o que fazer e não fazer) do cristianismo primitivo como uma das fontes do socialismo e do comunismo.

No livro “Sobre la religion” II, organizado por Hugo Assmann e Reyes Mate (editado pela Ediciones Sígueme, em Salamanca, Espanha, 1975), há vários textos sobre religião, escritos por Bebel, Lafargue, Dietzgen, Jaurès, Sorel, Kautsky, Labriola, Korsch, Togliatti, Rosa de Luxemburgo e outros socialistas.

Estes textos mostram a influência do cristianismo sobre as principais ideias do socialismo, que usa pilhas de textos e ideias cristãs. 

Há um texto, retirado de um livro de Maurice Thorez, que vale a pena transcrever. Thorez é tido como o pai da política de mãos estendidas aos cristãos. Nasceu em 1900 e faleceu em 1964. Foi nomeado secretário geral do Partido Comunista Francês, em 1930. Em 1947, foi Ministro de Estado, no primeiro governo do católico De Gaulle. Merece a gratidão por parte dos católicos, por ter auxiliado a diminuir o anticlericalismo no PCF.

Maurice Thorez, no livro “A França da frente popular e sua missão no mundo”, retirado do informe apresentado no IX Congresso do PCF, em Arles, em 25.12.1937, escreveu:

Junto com as palavras de Engels sobre o papel do cristianismo primitivo que citamos na Mutualidade, e que acarretaram algumas críticas bastante vivas, acrescentaremos estas declarações de Jules Guesde na tribuna do Palais-Bourbon, em 24 de junho de 1896.

“A um interpelador de direita que o acusava de clericalismo – vê-se como não fomos nós os primeiros a nos expormos a estes ataques, não é verdade? – Guesde, o apóstolo do socialismo na França, lhe respondeu:

Não creio nem me inquieta essa acusação de clericalismo; no entanto, sou mais justo com o cristianismo, com o grande passado da Igreja católica, que esses membros do Centro com o qual vos confundis cada vez mais vossos votos”.

Guesde ainda dizia:

Nos repugna o papel de acusadores públicos contra a série de séculos que estão atrás de nós. Não desconhecemos nem insultamos nenhuma das diferentes fases da evolução social. As classificamos, proclamando sua razão de ser sucessiva e fazendo-lhes sucessivamente justiça.

“Assim foi como no século XIII a Igreja – não temos nenhuma dificuldade em confessá-lo – desempenhou uma missão muito grande e muito útil.

“Foi ela que, levantando-se contra os homens forrados de ferro de então, não somente no físico, senão na moral, surgiu como a única potência intelectual capaz de impor um limite, um freio, ao menos relativo, às brutalidade e violências de cada dia”.

“E não é estranho que alguns socialistas, alguns comunistas formados na escola de Guesde e de Cachin, observem uma atitude justa diante dos trabalhadores católicos. (…)

“Leon Blum fez a um semanário católico estas declarações, que não chegaram no entanto ao conhecimento dos operários socialistas nos periódicos de seu partido:

Perguntais se creio possível uma colaboração entre católicos franceses e o governo da frente popular. Sim, acredito que é possível…E posto que é possível, não estarão de acordo os católicos franceses que isso é desejável?”.

“Os desejos de Leon Blum se realizaram pelo menos parcialmente, já que sentou a seu lado no governo da frente popular o católico Felipe Serre. Então, será que para alguns é possível esta colaboração no governo e não na fábrica nem na aldeia? Aprovariam eles ao partido operário belga, ao partido que dá seus presidentes à II Internacional, e que desde faz vinte anos pratica quase sem intermitência uma política de coalizão governamental com os conservadores católicos? E desaprovariam aos operários comunistas da França que estendem a mão a seus irmãos, o operários cristãos?

“Os que “proclamam o ateísmo como um artigo de fé obrigatória” vão pedir, então, que se exclua do partido socialista ao cidadão Philip, deputado de Lyon e cristão militante? Vão acusar ao Partido Trabalhista, cujos dirigentes lêm com maior agrado a Bíblia que O capital?”.

Jules Guesde foi preso em 1878, quando estava auxiliando a organização de um congresso internacional de operários, em Paris. Guesde foi interrogado em 24.10.1878, perante a 10ª Câmara Correcional. Ao defender-se, acusou a burguesia de confiscar os direitos subjetivos positivos decorrentes da Revolução Francesa e disse:

ou a sociedade está fundada na justiça, na igual repartição entre todos dos encargos e vantagens, na igual satisfação das necessidades de cada qual” “ou a sociedade está fundada no monopólio… e na exploração que deriva dele, de um maior número por alguns; e , nessa sociedade, que só uma minoria tem interesse em conservar, a ordem é uma questão de força; é o arbítrio e a violência…” (texto retirado do livro “A defesa acusa…”, de Marcel Willard, Editorial Calvino, Rio de Janeiro, 1946).

As palavras de Guesde, transcritas acima, são perfeitamente harmônicas com a fé cristã, especialmente na parte concernente à justiça social e distributiva, que exigem que os bens sirvam (seja controlados, atribuídos, usados) por todos, para satisfazerem as necessidades de cada um, dando a todos uma vida digna e feliz.

Guesde continuou a defesa, citando a frase de Mazzini: “os direitos não passam de palavras vãs para aqueles a quem faltam os meios de fazê-los valer”. E reivindicou o direito de “cada homem para um gozo igual do patrimônio da humanidade, restituído à humanidade” (ou seja, o domínio eminente da sociedade ou bem comum).

O termo “patrimônio da humanidade” tem clara raiz bíblica, pois, como apontaram vários Papas (inclusive Leão XIII), Deus deu todos os bens às pessoas, a humanidade, para que todos vivam felizes. O termo “restituído” vem de restituir, ou seja, entregar os bens a quem de direito, a quem tem o direito natural aos bens (ao povo, na medida das necessidades para uma vida digna). A restituição é também um termo cheio de religiosidade, que consta em várias passagens bíblicas.

Guesde queria “o sufrágio na oficina, a República no domínio econômico”. Ou seja, queria o controle dos trabalhadores sobre os meios de produção, o primado do trabalho, como consta claramente no “Gênesis” (subjugai os bens…). São ideais profundamente cristãos, que Maritain e Alceu não hesitariam em assinar embaixo.

Leon Blum definiu o socialismo (na “Revue de Paris”, de 01.05.1924), como a doutrina que pretende “reduzir o sofrimento e a desigualdade até seu resíduo incompressível, e instalar a razão e a justiça onde hoje reinam o privilégio e o acaso”.

Os melhores textos de Blum também são perfeitamente coerentes com o cristianismo.

Thorez exerceu uma boa influência no PCF e o crescimento do mesmo, creio, tem muito a haver com esta política de mãos estendidas, de mãos abertas, de diálogo e de ecumenismo (de respeito ao pluralismo, às diversas fontes do socialismo).

Na Itália, Palmiro Togliatti (1893-1964), co-fundador do jornal “Ordine Nuovo”, em 1919, com Gramsci, teve papel semelhante. Após a prisão de Gramsci, Togliatti lidera o Partido Comunista na Itália, como secretário geral do partido. O PCI, em 1956, graças a Togliatti, superou bem a crise do XX Congresso do PCUS, indo além da desestalinização. No final da vida, Togliatti emitiu vários juízos favoráveis sobre o trabalho conjunto com os cristãos. O “testamento de Togliatti”, um memorando que ditou pouco antes de morrer, tem boas críticas ao socialismo soviético.

Togliatti, líder do Partido Comunista Italiano, deixou claro, durante a II Guerra Mundial e em várias ocasiões (como Fidel Castro o faria mais tarde) que a consciência religiosa não é avessa ao socialismo humanista: “Não é verdade que a consciência religiosa traga, necessariamente, obstáculos à compreensão e à realização dos deveres e perspectivas (da construção do socialismo) e à adesão a este combate” (março de 1963).

Togliatti aproximou os comunistas e socialistas da religião e da Igreja.

Enrico Berlinguer seguiu a mesma linha.

Os textos de Berlinguer sobre saúde pública, especialmente as políticas preventivas e sobre a reforma sanitária são também excelentes, tendo como seguidor, no Brasil, dentre outros, o Senador Tião Viana, do PT do Acre.

Pio XI, em dezembro de 1937, escreveu aos bispos franceses sobre a política de mãos estentidas (“main tendue”):

Aos católicos franceses fala-se muito da mão estendida…Podemos apertar esta mão estendida? Gostaria muito de fazê-lo. Não se recusa uma mão estendida. Mas não se pode fazer isso em detrimento da verdade. A verdade é Deus. E não se pode sacrificar Deus. Agora, os que falam da mão estendida não se declaram inequivocamente sobre este ponto. Em sua linguagem há confusões e obscuridades que deveriam ser esclarecidas. Colhamos pois sua mão, para levá-la para a doutrina divina de Cristo”.

Maritain elogiou a resposta de Pio XI, que defendia o diálogo, a necessidade de esclarecimentos e distinções (seria bom se esta linha tivesse sido mantida e ampliada, mas, infelizmente, Pio XII cerceou, na década de 50, a experiência dos padres operários).

Mounier esforçou-se por ampliar o diálogo entre católicos e marxistas.

Depois do XX Congresso do PC da URSS, o diálogo foi um pouco ampliado. Embora Kruchov tenha em alguns pontos reforçado a pregação do ateísmo e do anticlericalism, mas Kruchov teve, no final das contas, um papel positivo. Após a derrubada de Kruchov, a URSS ficou ainda mais burocrática e estagnada.

Robert Havermann e Georg Lukacs (no discurso na Academia Política do PC da Hungria, em 28.06.1956) defendem o diálogo. No começo da década de 60 há semanas de diálogo, tendo Garaudy (com textos magníficos e correspondente de Dom Hélder Câmara) como principal fautor do mesmo.

Além deste, participaram J.P. Vigier, J.P. Sartre e J. Hyppolite.

Em 1964, Togliatti, no “Memorial de Yalta”, escreveu: “a velha propaganda de ateísmo não serve para nada” e pediu aos comunistas para “não contrapor suas convicções de forma abstrata às tendências e correntes diferentes, e sim entrar no diálogo com estas correntes”.

Togliatti elogiou muito os documentos do Concílio Vaticano II e João XXIII.

O Concílio Vaticano II acatou o espírito de João XXIII e ampliou o diálogo.

Em 1964, Ernst Bloch e Adam Schaff se destacaram, no lado marxista, na defesa do diálogo.

Houve inclusive congressos internacionais de diálogo entre cristãos e marxistas, em Salzburgo (1965), em Herrenchiemsee (1966), em Marienbad (1967) e em Praga (1967), na então Tchecolováquia. Somente a URSS, a Albânia de Hoxha e a RDA (Alemanha Oriental) não participaram.

A Ação Católica Operária (ACO), na França, no congresso anual de maio de 1971, deu um bom exemplo de saudável laicidade (tolerância, ecumenismo), ao aceitar trabalhadores marxistas na organização.

Cuba sempre adotou ECONOMIA MISTA, e amplia isso, agora

Sputnik – Cuba informou nesta terça-feira (7) que está dobrando a quantidade de terras que concede a futuros agricultores e a duração de suas concessões, em um esforço para aumentar sua estagnada produção agrícola.

O estado possui 80% da terra e aluga a maior parte para agricultores e cooperativas.

O restante é de propriedade de cerca de 400.000 agricultores familiares e suas cooperativas.

Apesar da locação de pequenas parcelas de terra para cerca de 200.000 futuros agricultores na última década, existem enormes faixas sem nenhum cultivo.

O jornal do Partido Comunista de Cuba, o Granma, afirma que as medidas procuram encontrar soluções para as “restrições que hoje retardam a agricultura”.

O ex-presidente Raúl Castro começou a arrendar terras, descentralizando a tomada de decisões e introduzindo mecanismos de mercado no setor há uma década. Mas a maior parte do esforço fracassou e o Estado retrocedeu nas reformas de mercado, mais uma vez atribuindo recursos, estabelecendo preços e controlando a maior parte da distribuição.

Castro foi substituído pelo presidente Miguel Díaz-Canel em abril, mas ele continua como chefe do Partido Comunista.

Cuba importa mais de 60% dos alimentos que consome a um custo de cerca de US$ 2 bilhões por ano. Os principais itens importados são: cereais e grãos como arroz, milho, soja e feijão, além de outros itens como leite em pó e frango.

Os novos regulamentos, publicados terça-feira no diário oficial (https://www.gacetaoficial.gob.cu), apontam que os agricultores poderão arrendar até 26,84 hectares de terra, em comparação com os atuais 13,42 hectares.

Os arrendamentos serão aumentados do atual prazo de 10 anos para 20 anos com a opção de renovação e as cooperativas poderão arrendar terras sem cultivo indefinidamente, em comparação a 25 anos, antes.

Os novos agricultores poderão construir casas e outras instalações em até 3% das terras arrendadas, em comparação com os atuais 1%, mas na maioria dos casos ainda deverão produzir determinadas colheitas ou gado e não podem alugar, comprar ou vender a terra.

O governo cubano frequentemente culpa o mau tempo, a falta de mão-de-obra e capital pela baixa produção agrícola, enquanto os críticos afirmam que isso se deve à falta de propriedade privada e investimento estrangeiro, infraestrutura frágil e a economia centralizada.
Cuba tem investido dezenas de milhões de dólares em lavouras com o objetivo de reduzir as importações.

Apesar do investimento, o Granma informou crescimentos tímidos da produção na última década: arroz (6%), feijão (8%), milho (6%) e leite (2,9%).

O Trabalho deve ser NÃO alienado, não reificante, não explorado

Deus é o Grande Artista-Artesão-Trabalhador-Criador do Universo.

A Criação (o Universo) continua. Deus nos criou para sermos co-criadores, co-gestores, co-laborantes, TRABALHADORES autônomos, solidários e cooperativos de Deus.

Continuar a Criação, melhorar o Universo, num movimento pela eternidade. 

Como ensinava Santo Agostinho, “passa a imagem deste mundo”, mas não a substância do mundo, a natureza, criação divina, vai continuar, pela eternidade. E isso explica o dogma (ensinamento) da ressurreição dos corpos.

O trabalho humano deve ser sem alienação, sem reificação, sem exploração, útil, realizador, melhorador da pessoa, agradável, lúdico, como é o trabalho de um artista. 

 

Encontro de Celso Amorim com Francisco I, com benção papal a Lula, e Francisco I pede para Lula rezar por ele….

O escândalo de abrir o Clube Hebraica a pro nazistas….

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